sexta-feira, 12 de junho de 2015

HOJE, É DIA DOS NAMORADOS...





SONETOS DA SEDUÇÃO AMOROSA

ou PEQUENO CANTARES DOS LONGES
E DE CHEGADA

 (por Silvério Duque)

à minha sempre Lucifrance Castro






 Teu rosto eu vislumbrei em meus anseios
aquele a quem meu peito já previa.
O meu amor não morre com a saudade
nem se finda se há muito não te vejo.

Falo de ti como quem vem de um sonho
– por teu amor aceito a vida e a morte...
Se me reinvento agora e a cada instante
é porque te adivinho em cada gesto.

Como um mistério em si tão revelado
toda presença ao teu surgir converge
como um traço de giz em pedra escura.

E tudo quanto eu quero e quanto temo
há de fazer-se em ti para que eu viva
que o meu viver sem ti é um voar de cinzas.






II


 Saber-se pertencer é ser inteira
como um rio que persegue as próprias águas
e ter por sobre o rosto o rosto do outro
sem se importar ser nada à sua volta.

Sombras, rastros ou coisas desgraçadas
tudo é um pouco de ti – tua presença
por vezes arruinada e recomposta­
– qual teu cheiro na cama já refeita.

Meu corpo existe a reclamar teu corpo
(que o teu corpo é meu corpo revivido)
e o dia de amanhã já se faz logo
a me trazer tão leve sobre a terra...

A vida de minha alma é a tua alma
e o grão de meu desejo quer tua fome.










Alagoinhas/Candeias, 08-12 de junho de 2015.




domingo, 19 de abril de 2015

“BIRDMAN” ou A INEVITÁVEL VIRTUDE DA CONSCIÊNCIA

"Nenhum embate é mais significativo e violento para Riggan do que aquele entre ele e ele mesmo, ou melhor, entre ele e seu ego inflamado personificado na forma do personagem Birdman, que ele, por anos, interpretou, e, até hoje, vive à sua sombra". 







“BIRDMAN”

ou A INEVITÁVEL VIRTUDE DA CONSCIÊNCIA

(por Silvério Duque)


Ninguém vive verdadeiramente se não cai
sob uma forma ou outra de sedução.
GABRIEL LIICEANU







Imagine a seguinte situação: você é um astro hollywoodiano de primeira grandeza, daquele tipo de celebridade mundialmente conhecida, que a maioria dos simplórios mortais se mataria para ter um autógrafo, amado e admirado por milhões de fãs ao redor do planeta, mas tudo isso se fazia quando você interpretava um famoso herói dos quadrinhos, todavia, ao se recusar a fazer o quarto filme da famosa franquia, sua vida cai em desgraça; você vê ir embora fãs, aquela sensação tão gostosa, quanto inconveniente, de ser reconhecido e perseguido pelas ruas, sua esposa gostosa, sua filha, que cai no mundo das drogas e na depressão, você mesmo se arremessa em um quadro depressivo cada vez maior quanto mais seu dinheiro e prestígio vão ficando escassos, e, como se não bastasse, com o ego e o senso de realidade tão maltratados, os limites entre o real e o fictício se tornam cada vez mais tênues, ao ponto de você não saber mais se está com os pés no chão do mundo real ou voando por sobre suas próprias fantasias... Imaginou?! Bem, esse é o mote para um dos filmes mais frenéticos e bem realizados dos últimos tempos: Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância (Birdman or The Unexpected Virtue of Ignorance, Estados Unidos/Canadá, 2014), do premiado e controverso Alejandro Iñárritu e ganhador do Oscar de 2014.


O filme, que concorreu com uma penca de indicações, e trouxe, para as telas do cinema, outras tantas de discussões e referências literárias e filosóficas, mostra-nos a vida de Riggan Thomson (interpretado por um Michel Keaton excelente em tudo, a começar por uma relação direta que o ex-protagonista de uma das franquias de Batman possui com a história de seu personagem), ou dizendo melhor, um determinado – e determinante momento – de sua vida, que é justamente o autor cuja vida foi descrita na pergunta que fiz na introdução deste texto. É ele o ator que caiu em total desgraça no momento em que se recusou a fazer o quarto filme da franquia Birdman. Agora ele se encontra em seu camarim, no Teatro St. James, em Nova York, tentando se acalmar, ao tempo que procura entender quais os caminhos que o levaram justamente àquela situação, bem como àquele momento. Incerto de onde está e do que de fato fará, Thomson precisa voltar ao ensaio de uma peça que ele mesmo adaptou de um conto do Raymond Carver, e, que, de quebra, também dirige e ousadamente protagoniza. Essa é a sua tentativa desesperada de retornar ao prestígio e ao reconhecimento, mas, dessa vez, a um prestígio e reconhecimento bem diferentes; ele quer realmente provar a todos que é um homem deveras talentoso e que seu brilho e sucesso vão muito além de um “enlatado” para adolescentes sem noção.


Thomson não é o Ed Motta, porém, quer ser reconhecido como um ator para um público seleto, que valoriza de verdade o talento e a grandeza de uma atuação sincera. No entanto, ele se vê, de pronto, com um problema terrível, um de seus colegas atores é péssimo, e Riggan Thomson vê nisso um entravo considerável em seu caminhar de volta à fama. Todavia, quando um spot de luz cai sobre a cabeça de seu inapto colega, Riggan vê nisso um alívio que logo se transformará em desespero, pois não há um ator de calibre para substituí-lo até a pré-estreia de amanhã; todos os que Riggan pensa para acompanhá-lo, em sua empreitada, ironicamente estão ganhando milhões interpretando heróis, enquanto ele, que perdeu e está a perder milhões para se livrar de um, desespera-se.


Sorte de principiante – no teatro –, uma oportunidade única bate à porta de Riggan Thomson: Mike Shiner (um Edward Norton muito à vontade em um papel que poucos poderiam interpretar sem cair em estereótipos fáceis), o melhor e mais problemático ator em atividade na Broadway está apto para assumir o lugar ao lado de Riggan. É justamente aí que todos os conflitos que tornam Birdman um trailer de barroquismos sem comparação começam a tomar proporções tão imensas quanto desesperadoras. A partir daí tudo é muito rápido e acompanhado por um solo de bateria igualmente ininterrupto, que certamente deixou muitos espectadores do filme tão tonteados quando o angustiado Riggan Tomson, ao encontrar-se no limiar entre a verdade e a fantasia, entre o talento de Mike e sua capacidade indiscutível de semear a discórdia, entre ser lembrado pelo que fez e reconhecido por aquilo que ele está fazendo, entre ser uma “celebridade” e tornar-se de fato um “artista”, entre a fé e a descrença em si mesmo.


Ao lado desses conflitos, que começam a se desencadear sem quase uma única pausa para respirarmos, todo o filme assume um ritmo frenético e os acontecimentos vão se desenrolando de uma forma que, antes que percebamos o passado, o presente já se abre para o futuro e assim sucessivamente sem que muitas vezes percebamos os intervalos que existem entre um e outro. Além do mais, há vários momentos em que não sabemos se estamos a assistir o presente ou o futuro dos acontecimentos, se estamos na realidade ou na fantasia, se é o ensaio da peça ou a apresentação propriamente dita e, acima de tudo, não percebemos, muitas vezes, se estamos ao lado de Riggan Thomson ou se estamos mergulhados em sua mente e em seus delírios, como numa espécie de discurso indireto livre cinematográfico que o diretor Alejandro Iñárritu aplica a todo o filme. É com essa manipulação temporal e realista que Birdman torna-se ao mesmo tempo um drama com ares de uma comédia, uma composição erudita com ritmo e improvisação jazzística, e um verdadeiro samba do crioulo doido onde tudo é embate: Riggan deseja o prestígio e o reconhecimento de Mike, que esconde, ou finge esconder, seu desejo de ser alguém que todos reconhecem na rua, como Riggan; a esposa de Riggan deseja ser amada por ele, mesmo sem diminuir o rancor que sente pelo ex-marido, que não sabe como dizer ou demonstrar que a ama, por mais que queira; mesmo sem saber o porquê dessa necessidade, Riggan precisa ser um bom pai para uma filha (a excelente Emma Stone) indignada e desencantada com tudo, inclusive, segundo ela mesma quer acreditar, com o próprio pai; Riggan ainda tem que cuidar de seu empresário desesperado (Zach Galifianakis), com uma companheira de palco também insegura e desiludida (Naomi Waltts), uma namorada tarada e também depressiva (Andrea Risebourouth)...


Contudo, nenhum embate é mais significativo e violento para Riggan do que aquele entre ele e ele mesmo, ou melhor, entre ele e seu ego inflamado personificado na forma do personagem Birdman, que ele, por anos, interpretou, e, até hoje, vive à sua sombra. Ironicamente, ninguém chama mais Riggan à realidade dos fatos e das coisas do que seu “outro eu”, mostrando-lhe a falsidade, o vazio e o desinteresse que o mundo contemporâneo tem pela grandeza e profundidade que Riggan tanto almeja a esta altura de sua vida.


O tempo de tudo, ou melhor, das duas semanas que transcorrem todo esse corte na vida de Reggan Thomson se dá em duas horas, como um verdadeiro conto literário, numa aparente sequencia única de câmera e que acompanha o ritmo e a desenvoltura de seu próprio delírio, como em Arca Russa e Festim Diabólico. Tudo isso exige dos atores desse filme uma concentração absoluta para manter o espectador nesse clima atordoante que Birdman nos apresenta e se sustenta do primeiro ao último minuto. Onde todas essas coisas vicejam está o grande trunfo maior do diretor Alejandro Iñárritu: pôr Michael Keaton no papel de Riggan Thomson. Keaton está excelente, como nunca esteve em toda a sua carreira, impecável em sua técnica até os mínimos detalhes, mas também dono de uma emoção controlada e muito bem trabalhada que beira o virtuosismo (mesmo assim, foi-lhe negado, injustamente, o Oscar), e, além disso, ele, como já disse, tem um passado profissional que muito se encaixa na história de Birdman, que foi o de interpretar, como superastro dos anos 80 e 90, o papel de Batman, sob a direção de Tim Burton, e que enfrentou uma perda quase irreparável de popularidade ao se recusar a fazer o terceiro filme da franquia.


Levando tudo isso em consideração, Birdman não é um filme fácil, nem o poderia ser... Ele traz desafios técnicos e artesanais muito complexos, diversos e impressionantes e satisfaz os estetas e críticos de plantão, ao mesmo tempo que os critica de forma crua e contundente (reparem como o trabalho dos críticos é apresentado no filme, e como ele é um soco com luva de pelica em um grupo fechado que deveria ser responsável por ajudar as pessoas a admirar e compreender a obra de arte, mas se mostram incapazes tanto de ensinar quanto de admirar aquilo que veem e sobre o qual escrevem). Também o mundo contemporâneo e tecnológico, com suas celebridades fáceis e efêmeras, e seu vazio de conteúdo e perspectivas, são duramente criticados no filme, sem que se perca de vista a força que tudo isso tem para os dias de hoje.


Críticas e filosofias a parte, nada pulsa com mais força e fulgor do que o elemento humano presente e explorado extremamente ao longo de toda a película. Além do mais, há uma forte ideia de imortalidade presente no desespero de Riggan em fazer algo grande, que o ponha no panteão dos imortais, dos lendários ou dos meramente lembrados pelos seus grandes feitos. Riggan, como diria Kierkegaard, não quer fazer parte do “cardume dos arenques”, em que 99% da humanidade se insere. Ele precisa fazer a diferença da forma mais verdadeira possível ou enfrentará a pior das mortes: o esquecimento; mas não qualquer esquecimento, um esquecimento que começa em vida e estender-se-á daqui à eternidade... Se somos a nossa ação por sobre o tempo, é ele, o tempo, como pensavam os barrocos, o agente de toda morte e destruição; e o ego, nosso primeiro fantasma e mais infernal castigo.

















Candeias, num calorento 17 de abril de 2015


domingo, 5 de abril de 2015

FELIZ PÁSCOA...

"A Crucificação de Cristo" de Peter Paul Rubens (1611): Óleo; 219 x 122 cm – Museum voor Schone Kunsten, Antuerpia.











A CRUCIFICAÇÃO

(por Silvério Duque)



– É tudo leve agora... é tudo pó
sob este Céu envolto na agonia
e a dor que se imprimiu na pele fria
é a tessitura exígua deste Ó

por onde se desfaz o último nó
do vetusto preceito que podia
fazer da Glória Eterna uma porfia
vã pois todo homem nasce e morre só.

Mas a treva plantada sobre o lume
desvaneceu-se toda sob o abraço
de um grande amor sem mácula ou ciúme.


E assim se espera pela fé a nova
chama que brotará sobre o ocaso
pois pela Graça tudo se renova.



ESTE SONETO É PARTE INTEGRANTE DE MEU LIVRO "CIRANDA DE SOMBRAS" É Realizações Editora, 2011):http://www.erealizacoes.com.br/ecom/produtos_descricao.asp…

APROVEITEM E OUÇAM TAMBÉM: https://www.youtube.com/watch?v=OhOstwxcwWs

segunda-feira, 16 de março de 2015

BRASIL... 15 DE MARÇO DE 2015!!!

Sem bandeiras partidárias, nem ideológicas, o Brasil disse NÃO a um governo corrupto!!!
EIS...



O grito daqueles que batem panelas, mas não vão para a rua com foices e facões...

O clamor daqueles que querem um Brasil grande e livre, e não uma extensão de Cuba ou da Venezuela... que não querem golpe; querem dignidade...

O protesto daqueles que pagam as suas contas, sustentam esse país, fazem com que os projetos sociais desse governo de canalhas sejam transformados em moeda para compra "legítima" de votos... daqueles que recebem salário pelo trabalho que fazem, e não vivem do auxílio eterno de um governo de cínicos que diz lutar contra a miséria, mas que transforma a miséria em massa de manobra... que não foram às ruas para receber trinta reais, mas para não pagar mais um centavo que financie a corrupção; que não têm vergonha de limpar privadas em Miami ou qualquer lugar que seja (trabalho é trabalho, principalmente se for digno), mas se envergonha de serem governados por uma quadrilha...

A indignação daqueles que sabem o quanto vale uma jornada de trabalho digno e mesmo assim são considerados indignos de protestar contra qualquer coisa que seja, pois são apontados como culpados de todas as desgraças alheias; e que muitas dessas desgraças poderiam ser resolvidas com uma boa administração governamental e espírito de iniciativa...

Não, eles têm direito sim: não porque são "brancos", não porque são "ricos", não porque são "elite", mas por fazerem parte do povo diverso e bonito desse país, que, ao contrário do que pensam muitos, não admitem a roubalheira, a doutrinação ideológica, a violência física e moral que nos assola a cada dia; eles têm direito porque pagam as contas e são vilipendiados por isso; eles têm direito por que conhecem seus deveres e são maltratados por isso; eles têm direito porque respeitam o direito dos outros, mas não admitem que lhes roubem esses direitos...

E, se mesmo assim, há quem acredite que vaiar um governo de ladrões é subir de classe social, então, hoje, eu entrei para a realeza...

Hoje, eu, Silvério Duque, professor, poeta, pai de família, trabalhador, brasileiro fui pra rua, pois quem gosta de bandido é quem vota no PT...!!!


sexta-feira, 13 de março de 2015

COLEÇÃO "HORIZONTES"... EDITORA MONDRONGO...

Todas as capas são de autoria de Gabriel Ferreira...







Quando meu amigo e poeta, Gustavo Felicíssimo, falou-me da ideia de fundar uma editora, juro a todos vocês – e só agora estou confessando isso, inclusive ao Gustavo – que isso não me soara muito agradável.



Não que eu desconfiasse de sua capacidade e ímpeto (não, isso ele tem de sobra), mas porque eu sei que, em se tratando de um país como o nosso, trabalhar com livros, e ainda por cima com poesia, constitui-se de uma verdadeira arte de colher decepções.



Mas, agora, agradeço, todos os dias, a Deus pelo facto de o Gustavo não ter mudado de ideia, e, hoje, com todas as dificuldades que este empreendimento envolve, a Editora Mondrongo tem se mostrado na vanguarda de muitas editoras, dedicando-se não só à publicação, mas à verdadeira divulgação e à apresentação da mais nova e melhor poesia feita hoje na Bahia, e, podem aguardar, em todo o Brasil.



Um bom exemplo disso está na ousadia de se criar toda uma série de livros com poetas, em sua maioria, inéditos, mas de inegável capacidade versânica. Vejam, por exemplo, a erudição e elegância dos versos de Henrique Wagner, em seu “A história decalcada”; a força melódica e o apuro técnico de Wladimir Saldanha, em “Cacau inventado” ou com João Filho, em “A dimensão necessária” – aliás, necessário mesmo, para mim, são versos como os de meu amigo João Filho –; a diversidade de formas e temas carregados de ousadia de Patrice de Moraes, em “Minha Bahia”, ou a profundeza psicológica de Nívia Maria Vasconcellos, em “A morte da amada...” E tem mais: a destreza poética de Heitor Brasileiro Filho, o autobiografismo poético de Herculano Neto e toda a experiência técnica e emotiva nos sonetos de Adelmo Oliveira, além dos livros que ainda não li, mas os lerei em breve, como “Saveiros de Papel”, de Ribeiro Pedreira e “Inúmera”, de Daniela Galdino... Sem me esquecer, é claro, do próprio Gustavo Felicíssimo, em versos onde tudo é demasiadamente sincero, como os presentes em “Desordem”...



Como se tudo isso já não fosse suficiente, há aquela carta na manga que definirá o jogo a favor de meu amigo: todas as capas têm desenhos exclusivos de Gabriel Ferreira e sua arte sincera, madura e excepcional... Se se for possível, realmente, julgar um, ou mais livros, por suas capas, os desenhos de Gabriel fazem justiça a toda qualidade impressa em cada uma das páginas da “Coleção Horizonte”...



Viva ao poeta e empreendedor Gustavo Felicíssimo! Viva à poesia que precisa fazer-se viva, e é através de homens como o Gustavo Felicíssimo e de poetas, como os citados acima, que saberemos sempre que tudo que é bom pode até se encontrar escasso, mas nunca findo... E um viva aos poetas e artistas que fazem da “Coleção Horizontes” aquilo que de mais surpreendente há em termos de edição de poesia em nosso Brasil... E quem quiser que faça melhor ou prove-me do contrário.




O desafio está lançado... 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

PORRA, FHC...

"Ninguém pode ser verdadeiramente sincero com os outros sem que o seja sincero, primeiramente, consigo mesmo. A mesma coisa se aplica à mentira: nem Dilma acredita na merda que ela mesma falou com tanto afinco... Sua fala foi mais que um ato idiota de alguém que, por não ter o que falar, só disse besteiras".




 

Dilma Rousseff, a exemplo da maioria dos que votaram nela, “sumiu, desapareceu, escafedeu-se”... Será que ela estava “a dois passos do Paraíso”? Duvido muito. Ao reaparecer, tentou explicar os motivos de seu indiscreto emagrecimento, disse ter “fechado a boca”, feito dieta, aderiu à vida saudável e aos bons modos alimentares. Tudo conversa fiada...



Dilma desapareceu porque é uma figura execrável; a personificação de tudo que de pior seu governo e seu partido representam: dada como mentirosa, mostra-se incapaz de assumir seus erros e procurar uma maneira realmente válida para corrigi-los; seria, talvez, o único gesto verdadeiramente honroso de sua miserável vida política. Visivelmente desesperada, procura atirar para todos os lados em que exista um opositor, para acusá-lo dos crimes que ela mesma, e seu partido, supostamente veem cometendo durante anos da maneira mais descarada possível. Mesmo afogada em denúncias de corrupção, que proveem da conduta imoral de seus companheiros de partido e governo, o único esforço, de fato, de sua parte é o de encobrir e proteger todo tipo de criminoso – inclusive traficantes presos na Indonésia – nem que, para isso, crises diplomáticas sejam criadas aos montes. Prestativamente ridícula, ela é, hoje, sem sombra de dúvidas, o maior motivo de piadas nos programas de humor e, principalmente, na Internet... depois dela, só mesmo os seus eleitores.



Mas, não se enganem, Dilma Rousseff não é um motivo de piada porque é engraçadinha, uma coisinha fofa, no fundo, bem lá no fundo, um amor de pessoa. Dilma é risível porque, simplesmente, esforça-se para ser, ou pelo menos parecer, indigna de todo escárnio que ela mesma tem criado para si mesma. Quanto mais se esforça para parecer séria, mais espalhafatosa se nos mostra. Quanto mais ela luta para passar uma imagem de sapiência, mais incoerente e insensata se nos apresenta. Quanto mais nos obriga a ouvi-la, mais e mais facilmente a reconhecemos como débil, frívola, fútil, arrebicada, brutesca, anedótica e carnavalesca
... Aliás, uma imagem típica a todo ditadorzinho advindo de uma república de bananas.



Em sua última aparição – e uso a palavra “aparição”, aqui, no sentido mais fantasmagórico do termo –, fez, por merecer, todas as “cantigas de maldizer” que lhe foram imputadas. E mais ainda, mostrou-se digna de toda a carga de “memes” que os internautas estão fazendo para torná-la, sem nenhum esforço, ainda mais parva, espampanante e picaresca.



Ortega y Gasset dizia, em seu “O Livro das Missões”, que “podemos pretender ser o quanto queiramos; mas não é licito fingir ser o que não somos”; só que, às vezes, fico a me perguntar se Dilma esforça-se para fingir ser quem não é, ou se se empenha em ser o que ela, realmente, nunca deixou de ser.  Um bom exemplo disso foi dito e feito pela própria Dilma, ao declarar que todas as denúncias e acusações que envolvem o seu governo, seu partido e seus asseclas são culpa de uma má investigação do Governo FHC. Fazendo isso, nossa Presidente conseguiu tudo que ela não queria: ser motivo de zombaria de quase todos, pois seus defensores (acreditem... eles ainda existem), permanecem caladinhos. Ora, Dilma... Se a Senhora e seus antecessores sabiam que havia corrupção na Petrobras antes da era PT e que não fora investigado, investigassem vocês, prendessem os acusados e fizessem da Petrobras um exemplo contra todo e qualquer corrupto que quisesse “mamar nas tetas do Governo”... foi isso que a Senhora e a PTralhada fez...? Seu discurso, Dilminha, além de paradoxal, é, a você mesma, acusatório. 



A velha fórmula de atribuir, aos seus desafetos, as cagadas que ela, e seus “companheiros” de partido, fazem a torto e a direito já não funciona mais. Ninguém pode ser verdadeiramente sincero com os outros sem que o seja sincero, primeiramente, consigo mesmo. A mesma coisa se aplica à mentira: nem Dilma acredita na merda que ela mesma falou com tanto afinco... Sua fala foi mais que um ato idiota de alguém que, por não ter o que falar, só disse besteiras. As palavras de acusação ao Governo do PSDB saíram de sua boca como um exemplo vivo de desespero, mas não qualquer desespero: o desespero de um sínico, de alguém que desdenha, por pura insensatez, de uma situação que ele mesmo causou.



Se Dilma Rousseff fechou a boca, por dieta ou não, deveria ter ficado com ela fechada mais um pouco; se emagreceu, foi de ruim... e se pareceu a todos uma completa imbecil, bem... talvez isso também seja culpa do FHC.            

    

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

DICA DE LEITURA... "PENSADORES DA NOVA ESQUERDA" DE ROGER SCRUTON...

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Vocês já se perguntaram o porquê de a PTralhada se incomodar tanto com o Bolsonaro, mas não ver nenhum problema na Graça Foster? De sair às ruas por apenas R$ 0,20... mas se calar por causa dos milhões que o PT roubou de nossas estatais, principalmente a Petrobrás? Das menininhas do partido saírem de peitola de fora para defender o aborto, mas se mostrarem horrorizadas e carolas se você dá uma palmadinha para educar seu filho...? 

Já se perguntaram o porquê de os PTistas chamarem a classe empresarial do Brasil de sonegadora, mas aceitar o mascaramento fiscal da Dilminha? Do porquê de eles defenderem tanto os traficantes de drogas, mesmos os que forem presos e condenados na Indonésia, mas se mostrarem incapazes de se sensibilizar com a morte sistemática de policias pelo narcotráfico, ou de pouco se importarem com a morte do Celso Daniel, chamando-a de “crime comum”? 

Já se perguntaram o porquê de o PTista não achar nada demais no desenvolvimento humano, econômico e cultural da Coreia do Sul, mas exaltar as “virtudes” da Coreia do Norte, um dos regimes mais fechados e cruéis de toda a história, ou de sempre se referirem a ação dos militares em 64 como golpe e ditadura, mas os crimes cometidos em cuba desde 1959 são chamados de “Revolução” e até de “democracia”? 

Já se perguntaram o porquê os PTistas não se importarem em mentir, mascará, vilipendiar, odiar, perseguir mesmo seus amigos em nome de algo que eles chamam de “ideologia”? 

Já se perguntaram o porquê de tantos gritos contra os crimes alheios e do enorme silêncio para os crimes do PT...?



***
Se vocês, meus amigos, já se perguntaram a respeito de tudo isso, mas querem se aprofundar ainda mais a respeito dos “porquês” desse comportamento tão contraditoriamente doentio, aconselho a vocês a leitura de “Pensadores da Nova Esquerda” (É Realizações, 2014), do filósofo inglês Roger Scruton. O livro é, na verdade, uma coletânea de textos, que Scruton publicou na revista “Salisbury Review” – revista conservadora que ele mesmo editou –, ao longo dos anos 80. Poucos pensadores se empenharam tanto na análise da maneira criminosa de pensar dos indivíduos de esquerda e seus esquemas discursivos e, neste livro, o que Scruton procura fazer, e o faz com a maestria de um pensador de sua estirpe, é a disposição que os esquerdistas e, principalmente, seus pensadores, têm em tolerar toda forma de crime e barbárie em nome de suas convicções ideológicas.


Um bom exemplo disso é quando, ao tomar convicção de que Pol Pot e seu Khmer Vermelho assassinava a população do Camboja de uma formal brutal e sistemática, a maioria esmagadora dos intelectuais de esquerda de todo o mundo ocidental fingia não saber de nada e até ironizava tais notícias, dizendo que eram invenções de uma mídia golpista e vendida ao monstro do capitalismo mundial, como fazem os PTistas quando são perguntados sobre os escândalos envolvendo as denúncias de corrupção da Petrobrás. Noam Chomsky, um desses ironizadores, quando não tendo mais como fugir a realidade que tanto lutara para disfarçar, como bom esquerdista que é, soltou frases de um cinismo digno de um político militante do PT, como essa: “meu julgamento fora acertado, diante das afirmações de que dispunha”. Jean Paul Sartre confessara, já no fim de sua existência, a matança de milhões de pessoas na antiga U.R.S.S., que ele tanto vira e negara, em uma vida dedicada à exaltação de Stalin. À busca de uma alternativa para o capitalismo, permitia-se qualquer coisa, corrupção ativa e deslavada, perseguição à imprensa, assassinato em massa, terrorismo, estados totalitários... Tudo mascarado graças à capacidade intrínseca que um esquerdista tem em menti... a começar para si mesmo.


Alguns pensadores analisados por Scuton são pouco conhecidos aqui no Brasil, tais como Galbraith e R.D. Laing; outros como Jürgen Habermas e Jean Paul Sartre são figuras tarimbadas nos discursos esquerdistas, nas Universidades brasileiras – verdadeiras instituições de adestramento esquerdista – e na maneira de pensar e agir dos políticos do PT e tutti quanti... E quem pensar que uma coletânea de artigos escritos há trinta, em pleno contexto da guerra fria, está fora de atualidade e praticidade... engana-se. Basta olhar tanto para o nosso Brasil, bem como para toda a América Latina, e facilmente se perceberá que, embora com técnicas mais elaboradas e eficientes, a maneira de pensar e os objetivos da Esquerda são os mesmos, assim como seus fins. Quando Scruton nos lembra que psicóticos intelectuais, como Antonio Gramsci, por exemplo, estavam convictos e dispostos a fazer do homem de esquerda um senhor de seu mundo e dos outros, pois, segundo o próprio Gramsci, o intelectual de esquerda teria o direito de “legislar sobre o homem comum”, entendemos quais os verdadeiros objetivos do PT e seus militantes, em tentar, desesperadamente, controlar a mídia e os meios de comunicação – como já o fizeram na grande maioria de nossas instituições de ensino há mais de 30 anos –, bem como minar, o quanto puderem, a constituição brasileira, tomando, como exemplo, as anomalias sócio-políticas implantadas na Venezuela, Bolívia e Argentina.


Presentes e devotados em nossas universidades, como santos entre as mais convictas das carolas, nomes como Lukács e Foucault versam entre nossos estudantes de ciências humanas como arautos do pensamento vitimista, ao tempo que são propagadores incorruptíveis do ódio e do mascaramento da realidade, onde o sucesso humano é julgado pelo fracasso de alguns, e o desprezo pelas instituições democráticas só não é maior do que seu amor visceral à violência e à intolerância e o desejo de tornar tais coisas verdadeiras virtudes, mas que competem somente aos homens de Esquerda. Scruton também nos lembra que, contra a democracia, a liberdade e outros valores “burgueses” não bastava apenas esbravejar, mas mentir, roubar, perseguir e, por fim, empilhar montanhas de cadáveres e depois lhes devolver apenas silêncio...



Leiam esse livro: 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

DA CRÍTICA EM "ESQUECIDOS & SUPERESTIMADOS" DE RODRIGO GURGEL...

Quem se volta contra a tradição acaba de um modo ou de outro se contaminando com o que dela há de pior, com a sua caricatura. E nesse complexo de Adão, os abusos formalistas, mais a crescente desfiguração da linguagem, com a posterior bênção acadêmica e sua formulação em decretos educacionais, criaram o isolamento do escritor que primeiro se ressentia de sua marginalização e depois a tornou numa ética - com licença da rima - de sua estética. Contra uma prosa que se pretende literatura porque se afasta do chão comum de cada dia é que se insurge, em continuação ao Muita retórica - Pouca literatura, Rodrigo Gurgel, que denunciou a cumplicidade da própria crítica literária nesse vício. Rodrigo Gurgel, diga-se, não escreveu esta obra com o intuito ranzinza de resgatar autores desconhecidos contra os escritores que se tornaram celebridades, o que seria outra forma de manifestar a sanha de originalidade dos modernistas, sob disfarce de arqueologia crítica. Está se falando, sim - pautado em princípios pedagógicos e de independência crítica, sem as comodidades ideológicas -, de ter curiosidade por saber o que foi produzido, de querer saber o que realmente diz o texto. - Jessé de Almeida Primo (Trechos do Prefácio, 'Literatura e verdade')

ESQUECIDOS E SUPERESTIMADOS










Da arte de admirar

ou a dignidade da crítica em Esquecidos & Superestimados de Rodrigo Gurgel

(por Silvério Duque)

ao professor e amigo Bel Pires,
esta sugestão de leituras.

...sente-se bem que cada um
traz a sua alma.
MANUEL BANDEIRA





Férias... Finalmente as férias... Professores gostam muito mais de férias do que qualquer aluno; e usam-nas das melhores e diversas formas possíveis – que não me cabe aqui discutir. Eu, particularmente, gosto de usá-las, entre tantas outras coisas, para pôr em dias as leituras pendentes; não àquelas, técnicas e obrigatórias de nossa profissão, mas as prazerosas, dedicadas, simplesmente, ao nosso bem estar mental e intelectivo. Na dianteira destas minhas leituras, encontrara-se o livro Esquecidos & Superestimados (Vide Editorial, 2014), do amigo e crítico literário Rodrigo Gurgel, o qual sorvo, alegre e compulsivamente.


Permitam-me, no entanto, caros amigos, antes de começarmos nossa conversa, uma – digamos – “simbólica” confissão: não gosto e, praticamente, não leio crítica literária. As exceções são as mínimas possíveis, e, como haveria de ser, é resultado de uma triagem que vem se reduzindo e se exigindo cada vez mais ao longo de anos. Não quero – por favor, não me entendam mal – que pensem em mim como um desses artistas repletos de vaidade extrema e orgulho vazio, incapazes de suportar quaisquer análises negativas ao seu trabalho, por mais didáticas e verdadeiras que lhes possam parecer. Poderia dizer que a culpa é de Rilke e seus conselhos a todo e qualquer jovem poeta, mas, além de mentiroso, estaria a dar a esta situação uma força e um colorido poético que não lhe caberiam, por várias razões...


A verdade é que boa parte da crítica literária que li, principalmente a brasileira, sempre me pareceu uma conversa de clubinho, onde afetação e ataques de mau humor somavam-se, na grande maioria das vezes, a uma completa má vontade de pensar, conhecer e sentir a respeito do que se estava, supostamente, analisando. Foi justamente com a crítica da crítica – assim é como eu gosto de me referir – que esta minha visão começou a mudar. Foi em épocas da famosa polêmica entre Bruno Tolentino e a rodinha de ciranda dos Irmãos Campos, onde as cortinas do teatro de fantoches da crítica brasileira começaram a cair escandalosamente – graças, em grande parte, pela atitude quase solitária do autor de O mundo como ideia e A imitação do amanhecer – que tudo aquilo que eu pensava a respeito de nossos críticos, bem como tudo aquilo que eu esperava deles, começava a desabotoar-se à luz de uma polêmica. Mais tarde, conheci a obra do professor Olavo de Carvalho, que elevou tal crítica não só ao campo de nossa filosofia, mas a toda nossa cultura: tanto Tolentino quanto Olavo me fizeram ver que o nosso problema não era “o da miséria que tínhamos ou criamos” – como era o fato de me fazerem acreditar que, no Brasil, não havia filósofos e, se os havia, eram chamados, assim, indivíduos do nível intelectual do senhor Leandro Konder ou a senhorita Márcia Tiburi, ou que Mário de Andrade, bem como Paulo Leminski, podiam ser chamados poetas –, mas da “riqueza que perdíamos ou desprezávamos”, como bem, certa vez, afirmou Arnaldo Jabor a respeito de João Cabral de Melo Neto.


Foi daí, também, que, através deles, e de meu amigo Jessé de Almeida Primo (que, aliás, prefacia o livro), que comecei a conhecer o que de melhor a crítica literária podia me dar, através de nomes como Carpeaux, Merquior, César Leal (o crítico e depois o poeta), Manuel Bandeira (não só o poeta, mas o crítico), os amigos e mestres Ildásio Tavares e Henrique Wagner; últimos herdeiros de um tempo onde crítica literária era formada por pessoas realmente compromissadas com a literatura e suas muitas maneiras de falar de uma única verdade, e não essa que está aí: entregue ao academicismo corporativista de professores medíocres que, imbuídos principalmente de um discurso esquerdista, não almejam menos que criar diferentes maneiras de não se fazer ou dizer algo realmente interessante.


A crítica literária, principalmente aquela que fui obrigado a ler na Universidade, e que serve de base para os livros didáticos que chegam às mãos de milhões de vítimas de uma educação miserável que impera em nosso país é, em sua maioria, uma variação de jargões técnicos institucionalizados, e para que uma seleção criteriosa seja substituída pelo simples papo furado ou, quando não, pelos tapinhas nas costas de algum amiguinho que, utilizando-se da máquina institucional, garantirá seu futuro salarial em uma de nossas Universidades. O resultado disso tudo não poderia ser pior àquele que se vê por aí, nos livros didáticos, nas críticas de jornal, nos ensaios especializados e tutti quanti, a fazerem de nossa literatura uma coleção grotesca de arquétipos reducionistas que mais atrapalham do que ajudam na compreensão do trabalho de um autor.


Não obstante, é justamente nadando contra essa maré de estereótipos e amarras ideológicas, que o trabalho de Rodrigo Gurgel, em Esquecidos & Superestimados, faz-se notório; quando ele nos lembra, por exemplo, que para lermos Euclides da Cunha, e seu Os Sertões­ – mas, se fosse pensar de igual maneira, em termos de poesia, bem se podia aplicar tal fórmula a um Augusto dos Anjos e seu Eu, por exemplo –, devemos esquecer coisas tão caras à maioria de nossos críticos, professores e demais artífices de teses de doutorado, como a linguagem científica e o conteúdo extremamente analítico, e nos ater ao valor estilístico, à força narrativa e à prevalência da fantasia em detrimento ao realismo determinista que parece predominar em toda a extensão de Os Sertões, mas que, por sua vez, servir-nos-á apenas à acentuação do poder ficcional de uma das obras fundamentais de nossa cultura... É quando, por exemplo, em Esquecidos & Superestimados, Rodrigo Gurgel nos admoesta:

“Um dos trechos mais belos e instigantes de OsSertões é ‘Higrômetros singulares’, no qual Euclides nos apresenta a ‘secura da atmosfera’, na região de Canudos, por meio de uma cena perturbadora. O leitor acaba de enfrentar as páginas inicias de ‘A Terra’, primeira parte do livro, e encontra-se dividido entre abandonar o volume ou seguir em frente. É a reação natural de quem, não sendo geólogo, pergunta-se o que significam, por exemplo, ‘assomadas gnáissicas caprichosamente cindidas em planos quase geométricos, à maneira de silhares’”.

e reitera:
“Ele percebe, graças a seu instinto panglossiano e à euforia, a relativa beleza de dizer que: ‘pelas abas dos cerros, que tumultuam em roda – restos de velhíssimas chapadas corroídas – se derramam ora em alinhamentos relembrando velhos caminhos de geleiras, ora esparsos a esmo, espessos lastros de seixos e lajes fraturadas, delatando idênticas violências’. Mas questiona-se se poderá suportar a descrição de ‘cristais de feldspato’, ‘estratos de talcoxisto’, ‘formações silurianas’, ‘cachopos de quartizito’ e quejandos. Nesse momento quando suas vísceras começam a gemer, salva-o da escuridão o narrador, abraçado à tarefa de explicar as características climáticas, mudando subitamente a inflexão da voz para tornar-se íntimo, lírico: ‘percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de uma canhoneiro frouxo de tiros espaçados e soturnos, encontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colinas se dispunham circulando um vale único. Pequenos arbustos, icozeirosvirentes viçando em tufos intermeados de palmatorias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum velho jardim em abandono. Ao lado de uma arvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação franzina’”.  

retoma:

“Nesse cenário idílico, no qual ‘icozeirosvirentes viçando em tufos intermeados de palmatorias de flores rutilantes’ explodem não só graças ao brilho que ofusca, mas a aliteração da frase, um soldado ‘descansava... havia três meses’. A antinomia dos elementos seduz. Passadas dezenas de páginas em que o linguajar técnico enfastiava, no centro do jardim luxuriante surge o morto: ‘Morrera no assalto de 18 de julho. A coronha da Mannlicher estrondada, o cinturão e o boné jogados a uma banda, e a farda em tiras, diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário possante. Caíra, certo, derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a fronte, manchada de uma escara preta. E ao enterrar-se, dias depois, os mortos, não fora percebido’”.

e, finalmente, arremata:

“A cena, trágica, tem uma beleza que atordoa. Ali está o defunto, protegido pela longa sombra do sol poente, ‘braços largamente abertos, face volvida par os céus’. Euclides acrescenta um comentário enternecedor: ‘o destino que o removera do lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante [...]’. E prolonga nossa pena por meio de uma sugestiva amplificação: ‘[...] e deixara-o ali há três meses – braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os luares claros, para as estrelas fulgurantes...’. As linhas finais servem não só à comprovação científica da ‘secura extrema dos ares’, mas acrescenta caráter filosófico ao texto. O narrador contrapõe uma nota de enlevo à sua constatação, lacônica e aguda, colocada em três travessões, sobre o fim da matéria, como se a degradação invulgar daquele corpo pudesse fugir à lei universal...”


É importantíssimo deixar bem claro que o trabalho que Gurgel desenvolve em seu livro não é o de ressuscitar velhos e obscuros autores pelo simples fato de estarem mortos e obscurecidos, até porque há autores que merecem estar mortos ou longe do clube dos cânones, incluindo autores que, infelizmente, não comungam de tal situação, mas, como bem acentuou Jessé de Almeida Primo no prefácio de Esquecidos & Superestimados, o critério de Gurgel é chamar nossa atenção à relevância que muitas obras ditas obscuras têm para conosco e com a literatura brasileira, e não o seu grau maior ou menor de obscuridade. Além do mais, ao escolher autores do início do século, Rodrigo Gurgel nos convoca a um ponto de vista bastante delicado, pois estes autores se encontram no limiar da cultura brasileira; entre seu auge e o início de sua decadência.


Se Rodrigo Gurgel atém-se à análise de nomes completamente desconhecidos da maioria dos leitores brasileiros (incluindo os professores universitários), e malogrados pela crítica literária de nosso Brasil varonil, como Lindolfo Rocha, Carlos Laet e mesmo Simões Lopes Neto, devemos nos atentar para o fato de ele também trabalhar com nomes notórios de nossas letras: Euclides da Cunha, Olavo Bilac, Lima Barreto, Coelho Neto e Monteiro Lobato... vítimas de uma crítica incapaz, desmesurada e excessivamente laudatória que mais distancia do que aproxima os leitores e alunos de literatura da real essência de seus trabalhos, impedindo muitos leitores de ouvir aquilo que o texto tem a dizer, pois como o próprio Gurgel nos diz em determinado momento de seu livro, é preciso deixar que o texto fale, assim, divido muitíssimo que, depois de se aventurarem pelos 18 capítulos desse livro, pelas 18 obras nele analisadas, nenhum leitor de Esquecidos & Superestimados que, conferindo não só dignidade ao que analisa, mas como analisa, não se sinta arrebatado suficientemente por uma crítica séria e apaixonada  aponto de logo querer mergulhar de novo nas páginas de um Negrinha, de nosso mestre Lobato, ou nas quase desconhecidas paragens de Maria Dusá, de Lindolfo Rocha.


O que quero deixar bem claro, aqui, caros amigos, é que o autor de Esquecidos & Superestimados nos dá uma singela, amostra do papel de uma crítica literária realmente verdadeira. Singela, porém, precisa, pois, se é crítica, deve-se prezar pela independência, menosprezar as ideologias e a preguiça intelectual, e, acima de tudo, querer saber tudo aquilo de que realmente fala o texto. Rodrigo Gurgel, por fim, chama-nos a atenção para trechos como esses, encontrados na monumental obra euclidiana, nos quais, segundo ele, a fantasia estraçalha as amarras do ensaio histórico e da linguagem cientificista, justificando a leitura de Os Sertões:

“E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservado em traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranquilo sono, à sombra daquela arvore benfazeja. Nem um verme – o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria – lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível”.

ou da força inigualável de uma continuidade persuasiva, repleta de força poética, onde horror e beleza arrebatam o leitor de Lendas do Sul, de João Simões Lopes Neto, como nessa descrição de uma grande cobra de fogo – da Boitatá – seu nascimento e fome:

“uma luzerna, um clarão sem chamas,... um fogaréu azulado, de luz amarela e triste e fria, saída dos olhos, que fora guardada neles, quando ainda estavam vivos...”


mas nos fala, também,da capacidade que a injustiçada, e, por assim dizer, quase esquecida, Júlia Lopes de Almeida tem em criar personagens com profundezas psicológicas memoráveis, onde gestos diálogos e ambiente mesclam-se como um só corpo essencial à vida da narrativa, sem deixar de perceber a fraqueza do discurso panfletário de sua autora, atrelado à repetição enfadonha de certos detalhes descritivos, lugares-comuns de sua época e muito presentes em A Falência; de como Lima Barreto, na prática, muitas vezes abandona sua “literatura militante” para se entregar à tragédia tanto literária quanto pessoal, num “sentimento de derrota” indelével em toda a sua obra; a lucidez e grandeza de Monteiro Lobato; da contemporaneidade presente em A todo transe, de Emmanuel Guimarães... Em tudo isso Rodrigo Gurgel nos presenteia com duas coisas bastante importantes: o poder de uma análise contundente, pois toda crítica que se prese é análise (onde a relevância das obras deve vir antes de quaisquer arroubos pessoais ou ideológicos, doa em quem doer... a começar pelo próprio crítico) e a total falta de pudor que, em hora certa, não se contem em elogiar, admirar, enaltecer e enlevar-se. E por quê? Porque a crítica literária deve ser digna; digna da obra que analisa e, consequentemente, digna de si mesma. Além do mais, é dever tanto do artista quanto do crítico um compromisso com a verdade; um bom exemplo disso está no capítulo 15 de Esquecidos & Superestimados, onde Rodrigo Gurgel analisa ninguém menos que o “corrosivo e sempre contemporâneo” Monteiro Lobato. Ao comentar uma de muitas besteiras ditas por Alfredo Bosi sobre o autor de Negrinha e Urupês, Gurgel é catedrático:

“Para a maioria de seus detratores, o artigo Paranoia ou mistificação? – a proposito da exposição de Anita Malfatti –, estigmatizou o escritor, transformando-o em um inimigo de tudo o que significa avanço na arte brasileira. Lido com atenção, o texto apresenta inclusive elogios à obra de Anita Malfatti, porém, aos criadores do senso comum não importa a verdade – interessa, sim, preservar certa posição a qualquer custo. Passam a valer, dessa forma, as versões que, reafirmando a voz geral, garantem aos incansáveis repetidores a aprovação do partido, a chancela dos iguais. O gregarismo cobra, sem dúvida, alto preço da inteligência”.


Acredito,caros amigos,que a critica é, de certa forma, uma espécie de arte de admirar; é pelo menos assim como a vejo ao ler os trabalhos de um Benjamim ou de um Northrop Frye, por exemplo... Se o crítico se refreia em admirar, em dizer o quanto está encantado por aquela obra ou mesmo aquele mero excerto, é como um enólogo que não gosta de vinho, um comerciante que não acredita em seu produto ou uma bela mulher que ignora sua própria beleza.Gurgel sabe que a busca do verdadeiro sentido de se escrever é a busca de quem realmente somos; não podemos fazer isso sem, antes, entregarmo-nos à paixão pelo que fazemos, buscamos e queremos – e eis-me aqui, utilizando-me, como Bilac, de palavras em tríades encadeadas, em maneira maçante e acumulativa.

Sendo assim, qual é o papel de uma crítica literária realmente verdadeira? O papel de uma crítica literária realmente verdadeira é o de ser uma fresta de luz sobre a obscuridade de um texto que nos exige mais do que somos capazes de a ele devolver, sem que percamos, todavia, a beleza e o fulgor de mistério que tal obscuridade nos oferta. A crítica literária que se faz em boa parte no Brasil é justamente o contrário disso: é uma crítica que, vendo o leitor perdido na obscuridade, não hesita em jogar sobre ele uma camada extra de breu e burrice – quando não, toneladas inteiras –, excedendo para falar de pouco ou se restringindo ao mínimo por não poder ou não ter que falar do muito. Mas, graças a Deus, temos mestres como o Rodrigo Gurgel a escrever obras como Esquecidos & Superestimados... Amém!






Candeias, 13 de dezembro (dia de Santa Luzia) de 2014.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

UM POEMA DE NATAL...

A Adoração de Caravaggio (1609), Óleo sobre madeira, 314 X 211 cm, Museu Regional de Messina.


UM POEMA DE NATAL

(por Silvério Duque)






[à maneira de Jorge de Lima]



      Do alto 
      me vi:
meu coração é o mesmo sobre as pedras
ou no ventre faminto dos insetos
e tudo que ontem brilhou
será chama novamente
a noite então desaba por sobre os portos
e outras sombras cairão em meio aos olhos
que continuam abertos para a morte
e outros corpos em vão virão à praia
a procura de um mar para engoli-los
sonhando acordado vi o céu translúcido
oboés distantes
amantes perdidos
igrejas desertas
meus pés sobre a terra
minhas mãos por entre os céus
em minhas asas todos os infernos
já não sei o que existe no Universo nem por detrás das coisas obscuras dos eclipses das noites dos dias das coisas mudas das coisas sem nomes sem início sem retornos ou mar ou horizontes sol estrelas vidas desejos vãos razões necessidades loucuras diademas conspirações do amor e dos espinhos
sou todo asas
sou todo leis
sou cetro
escudo
verbo
a carne destes verbo
seu alimento
anjo arremessado e anjo terreno
estátua de sal e de espinhos
chagas
cruzes
inesperado caminho:
canto o que amo
amo tudo que morre
     o abandono
     o acabar-se
e em tudo existe o mesmo sopro
o mesmo brilho
a mesma razão e propósito
               a mesma noite

é este o meu amor e o meu lamento
tudo que fui e sou é só saudade
e a realidade é apenas doce invento
porque de sombras vive a claridade

jamais me transportei em pensamento
para além desta morte que me invade
e o que interessa a mim cada momento
se já não me apetece a Eternidade?

mas nunca é mais que idéias os instantes
essa pobre ilusão chamada vida
cheia de sons e lumes incessantes

 – recordas-te de mim, grande Lusbel
para além desta memória dolorida
e da torre maldita de Babel


e
tudo
tudo que o amor cegou agora vê
a já não eram mais nem
corpos nem escombros
barco sem mar
 sem céus
 e
 sem destinos
e há bocas bem abertas esperando
pr'um renascer de sombras e mistérios
assim
me convenci
destas presenças
destas estrelas que as manhãs engolem
porém
minha sede já não é de água
faminto fui das mais diversas fomes
sem retornar aos céus
ou a velhas ilhas
vi o mar devolvendo velhos corpos
e havia apenas pelo espaço inteiro
o mesmo
ar
que há nos ventos e nos vermes
e as coisa a que os anjos se assemelham
ah, sobre os olhos de
  Deus
tudo se acaba
e revive outra vez para o Seu nome...